No ano de 1215, na cidade de Isernia, nasceu um menino destinado a trilhar caminhos que poucos homens ousariam percorrer. Chamava-se Pedro Angeleri de Morrone, penúltimo entre doze filhos de uma família simples de camponeses, onde o pão era fruto do trabalho constante e a fé sustentava o cotidiano.
Ainda jovem, experimentou a dor da perda do pai. Foi então que sua mãe, mulher de fé firme e olhar confiante na Providência, decidiu encaminhá-lo aos estudos eclesiásticos. Via naquele filho silencioso uma inclinação natural para as coisas de Deus — inclinação que crescia à medida que o jovem descobria, no silêncio da natureza, uma presença que não se podia explicar apenas com palavras.
Desde cedo, Pedro encontrava na solidão das montanhas e no sussurro dos ventos um convite à contemplação. A beleza da criação tornava-se, para ele, uma espécie de livro aberto, onde cada pedra, cada árvore e cada fonte pareciam conduzir o pensamento ao Criador.
Movido por esse desejo interior, ingressou na Ordem Beneditina, atraído pela disciplina monástica e pela vida de oração. Aos vinte e quatro anos, recebeu a ordenação sacerdotal. Contudo, em vez de buscar honras ou cargos, fez uma escolha que surpreendeu muitos: retirou-se como eremita para o Monte Morrone, na região dos Abruços.
Ali começou uma vida marcada por austeridade. Oração, penitência e jejum tornaram-se seus companheiros diários. Não lhe faltaram tentações — inquietações interiores que buscavam afastá-lo do recolhimento — mas enfrentava cada combate espiritual com a cruz firme entre as mãos, como quem encontra nela força suficiente para vencer qualquer fraqueza.
Seu exemplo silencioso não permaneceu oculto por muito tempo. Outros homens, atraídos pela sua firmeza e pelo testemunho de vida, passaram a procurá-lo. Aos poucos, formou-se ao seu redor o primeiro núcleo dos Eremitas de Maiella, aprovado pelo Papa Urbano IV.
Graças ao apoio do Latina Malabranca e do rei Carlos II de Anjou, o grupo — que passou a ser conhecido como os Celestinos — expandiu-se rapidamente. Mosteiros foram fundados, abadias esquecidas foram restauradas, e o espírito de recolhimento floresceu em várias regiões.
Enquanto isso, Pedro mantinha sua rotina inalterada. Para ele, o tempo não era medido pelos acontecimentos externos, mas pelo ritmo da oração incessante.
Sua fama atravessou fronteiras. Em toda a Europa, era conhecido como homem de Deus. Peregrinos percorriam longas distâncias em busca de conselhos, conforto e, muitas vezes, cura. A todos ele propunha o mesmo caminho: conversão sincera do coração. Era um tempo marcado por conflitos, tensões políticas, divisões internas e pestilências — e, nesse cenário conturbado, sua palavra simples oferecia direção e esperança.
Corria o ano de 1292 quando a morte do Papa Nicolau IV mergulhou a Igreja em um longo período de incerteza. Durante vinte e sete meses, a Sé Apostólica permaneceu vacante. Os onze cardeais eleitores encontravam-se divididos, incapazes de alcançar consenso, presos a rivalidades entre famílias poderosas como os Família Orsini e os Família Colonna, além das pressões políticas exercidas por governantes influentes.
Enquanto isso, isolado em sua cela, Pedro de Morrone tomou uma atitude inesperada: enviou aos cardeais uma advertência firme, anunciando a possibilidade de punição divina caso a eleição não fosse realizada em breve.
Essa mensagem ecoou com força.
A fama do eremita, reconhecido por sua integridade e por sinais extraordinários atribuídos à sua intercessão, levou os cardeais a considerar precisamente aquele homem solitário como solução para o impasse.
Uma delegação dirigiu-se até sua caverna nas montanhas da Maiella. Diante da proposta, Pedro recusou inicialmente. A ideia de assumir tal responsabilidade parecia incompatível com sua vida de recolhimento. Contudo, após refletir profundamente, entendeu que ali poderia estar um chamado superior.
Mesmo assim, manteve certa independência: recusou o convite para dirigir-se a Perugia.
No dia 29 de agosto de 1294, data associada à memória de São João Batista, escoltado pelo rei Carlos, seguiu até L'Aquila, montado em um simples jumento. Foi ali, na grande igreja de Santa Maria di Collemaggio, construída anos antes por sua própria iniciativa, que recebeu a tiara pontifícia.
Escolheu o nome de Celestino V.
Durante seu breve pontificado, tomou uma decisão histórica: convocou o primeiro Jubileu da história, conhecido como o Jubileu do Perdão, abrindo um caminho de reconciliação espiritual que marcaria profundamente a tradição cristã.
Logo percebeu, porém, que o peso do governo era diferente da vida solitária que sempre conhecera. Cercado por homens experientes nos assuntos da Cúria, percebeu que muitos desejavam influenciar suas decisões em benefício próprio.
Para fortalecer o governo, convocou um consistório e nomeou doze cardeais. Contudo, suas escolhas e sua proximidade com Carlos II de Anjou provocaram críticas severas. A transferência da Cúria para Nápoles revelou-se, com o tempo, uma decisão difícil — e ele percebeu que se tornara dependente das pressões políticas da coroa.
Foi então, na solidão de uma pequena cela em Castel Nuovo, que amadureceu uma decisão extraordinária: renunciar ao pontificado.
A ideia encontrou apoio no cardeal Benedetto Caetani, profundo conhecedor do Direito Canônico e que viria a sucedê-lo com o nome de Bonifácio VIII.
No dia 13 de dezembro de 1294, diante dos presentes, pronunciou palavras que ecoariam através dos séculos. Declarou que, movido por humildade, fraqueza física e desejo de retornar à tranquilidade perdida, renunciava livremente ao pontificado.
Após essas palavras, retirou os paramentos sagrados e vestiu novamente o antigo hábito de eremita.
Pouco depois, buscou refúgio em lugares desertos, desejando recuperar a vida simples que sempre amara. Contudo, apenas onze dias após sua renúncia, o novo Papa ordenou que fosse conduzido ao Castelo de Fumone.
Ali, em uma cela estreita, viveu seus últimos dias. No dia 19 de maio de 1296, morreu em oração — como vivera desde a juventude.
Sua história atravessou os séculos marcada pelo gesto que ficou conhecido como a “grande renúncia”, mencionada por Dante Alighieri em sua célebre Divina Comédia.
Mais tarde, em 1313, foi canonizado pelo Papa Clemente V.
Seus restos mortais permanecem venerados na Basílica de Collemaggio, destino constante de peregrinos que ali buscam silêncio, reflexão e coragem espiritual.
Entre esses peregrinos ilustres esteve Bento XVI, que, em 2009, deixou naquele local o pálio recebido no início de seu pontificado — gesto que recordou, aos olhos do mundo, a força interior daquele antigo eremita que preferiu a liberdade da consciência à honra do poder.
Assim permanece viva a memória de São Pedro Celestino V — o homem que encontrou na renúncia não uma derrota, mas um testemunho profundo de humildade, liberdade e fidelidade ao chamado que ecoava, desde a juventude, no silêncio das montanhas.
São Pedro Celestino rogai por nós!
O Espírito Santo concede a cada um de nós um dom específico. Viver esta vocação doada por Deus é sinal de sabedoria e união com a vontade de Deus. Quando trocamos nossa vocação por outros caminhos, fica-nos uma lacuna na vida. Assim, vamos encontrar em Deus nossa verdadeira vocação e responder ao chamado de Deus com alegria e fidelidade.
Deus eterno e todo-poderoso, quiseste que São Celestino V governasse todo o vosso povo, servindo-o pela palavra e pelo exemplo. Guardai, por suas preces, os pastores de vossa Igreja e as ovelhas a eles confiadas, guiando-os no caminho da salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional