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Santo André Kim e companheiros mártires

Santo André Kim e companheiros mártires

Os mártires da Coreia: uma Igreja nascida da coragem dos leigos

A história dos 103 mártires da Coreia começa de maneira singular: não com a chegada de grandes missionários estrangeiros, mas com a busca de leigos coreanos que, movidos pelo desejo de conhecer a verdade, encontraram o cristianismo através de livros vindos da China. Por isso, sua história ocupa um lugar especial na vida da Igreja: a primeira comunidade católica coreana nasceu da iniciativa de seus próprios leigos.

No século XVIII, estudiosos coreanos tiveram contato com obras cristãs produzidas na China. Entre elas estava O Verdadeiro Sentido do Senhor do Céu, escrito pelo jesuíta italiano Mateus Ricci, missionário que procurou apresentar a fé cristã em diálogo com a cultura chinesa. A obra despertou interesse entre intelectuais coreanos que desejavam compreender melhor a doutrina cristã.

Dessa busca nasceu uma iniciativa que mudaria para sempre a história religiosa da Coreia.

Em 1784, Yi Seung-hun foi enviado a Pequim. Ali recebeu o batismo e voltou para sua terra trazendo consigo a fé que havia abraçado. A partir dele, formou-se uma comunidade cristã inteiramente constituída por leigos — um acontecimento extraordinário na história da evangelização.

Sem sacerdotes permanentes e enfrentando enormes dificuldades, esses primeiros cristãos começaram a organizar sua vida de fé. Reuniam-se, estudavam o Evangelho, ensinavam uns aos outros e procuravam permanecer unidos à Igreja universal. Ao mesmo tempo, insistiam na necessidade da presença de sacerdotes que pudessem acompanhar aquela comunidade nascente.

A resposta demorou.
Durante décadas, os cristãos coreanos precisaram perseverar quase sozinhos. O primeiro sacerdote chinês chegou somente posteriormente, e, na primeira metade do século XIX, a comunidade ainda dependia de poucos sacerdotes estrangeiros. Somente em 1836 chegaram os primeiros missionários franceses da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris. Alguns deles também haveriam de morrer como mártires.

Mas a fé já havia lançado raízes profundas.

Uma Igreja provada pelo sangue
As autoridades perseguiram repetidamente os cristãos. As perseguições de 1791, 1801, 1827, 1839, 1846 e 1866 deixaram uma marca indelével na história da Igreja coreana. Em menos de um século, milhares de cristãos deram a vida por sua fé.

Entre eles estava Santo André Kim Taegon, nascido em 1821 e destinado a tornar-se o primeiro sacerdote coreano. Depois de receber sua formação sacerdotal no exterior, voltou à Coreia e dedicou-se ao serviço dos cristãos perseguidos. Em 1846, foi preso e executado por causa de sua fé.

Sua vida se uniu, assim, à de homens e mulheres de diferentes idades e condições sociais. Entre os 103 canonizados havia 11 sacerdotes e 92 leigos: homens e mulheres, jovens e idosos, nobres e pessoas simples. O mais jovem tinha apenas treze anos; o mais velho, 72.

Não eram apenas religiosos. Eram pais, mães, jovens, catequistas e cristãos comuns que haviam descoberto no Evangelho uma verdade pela qual estavam dispostos a entregar tudo.

Entre os testemunhos conservados pela Igreja encontra-se o de Teresa Kwon, que, diante da pressão para abandonar a fé, respondeu que, se não se deve trair um pai ou uma mãe terrenos, muito menos se pode trair Deus, Pai de toda a humanidade. Suas palavras revelam a firmeza de uma mulher que já havia decidido a quem pertencia sua vida.

O sangue que se transformou em semente
Século após século, o sangue daqueles mártires não significou o fim da Igreja coreana. Pelo contrário, tornou-se parte de sua identidade.

Em 6 de maio de 1984, durante sua viagem à Coreia, o Papa João Paulo II canonizou solenemente os 103 mártires em Seul. A celebração aconteceu no contexto do bicentenário da chegada da fé católica à Coreia e foi uma das grandes celebrações de seu pontificado.

Naquela ocasião, o Papa destacou que a Igreja coreana possuía uma característica extraordinária: havia sido fundada por leigos que procuraram a fé, a acolheram e depois a transmitiram aos outros. João Paulo II apresentou os mártires como verdadeiros pais e mães na fé do povo coreano.

E havia ainda algo profundamente simbólico naquele momento. Os mártires que haviam morrido quando a Igreja coreana ainda era pequena eram agora honrados diante de uma multidão de cristãos.

O que parecia derrota havia se transformado em fecundidade.
A Igreja que nascera discretamente através de livros, viagens e encontros de leigos havia atravessado perseguições, prisões e execuções. O sangue derramado por seus primeiros filhos não apagou sua história; tornou-se parte da semente de uma comunidade que continuaria crescendo.

Por isso, ao recordar Santo André Kim Taegon e seus 102 companheiros, não contemplamos somente homens e mulheres que morreram durante perseguições. Contemplamos pessoas que compreenderam que a fé recebida não podia permanecer escondida.

Eles procuraram a verdade, encontraram Cristo e, quando chegou a hora da prova, preferiram permanecer fiéis.

A Igreja coreana nasceu da coragem dos leigos, cresceu em meio às perseguições e encontrou nos mártires sua primeira grande escola de fidelidade.

Como proclamou João Paulo II diante deles, o martírio, unido ao sacrifício de Cristo, não é a última palavra: a morte dos mártires pode tornar-se começo de uma nova vida.
Santo André Kim Taegon e companheiros mártires, rogai por nós!

Reflexão

O sacrifício dos mártires coreanos, aceitado de bom grado por Jesus Cristo que os havia conquistado, deu sem dùvida uma abundante colheita e devemos rezar para que continue a ser fonte de orgulho, esperança, força e inspiração para todos os cristãos.

Oração

Deus todo-poderoso, que destes ao mártir Santos André Kim Taegón e companheiros a graça de sofrer pelo Cristo, ajudai também a nossa fraqueza, para que possamos viver firmes em nossa fé, como eles não hesitaram em morrer por vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional